
A crise envolvendo a Neoenergia Cosern e consumidores de energia solar no Rio Grande do Norte ganha novos contornos e expõe problemas estruturais que vão além do faturamento. Além das denúncias de cobranças indevidas, falhas na compensação da energia gerada e aumentos considerados abusivos nas contas, cresce o número de consumidores que aguardam há meses a ligação de suas usinas solares — mesmo após a conclusão das instalações e o cumprimento de todas as exigências técnicas.
O atraso na conexão dos sistemas à rede elétrica tem provocado prejuízos financeiros significativos. Muitos consumidores investiram valores elevados ou recorreram a financiamentos acreditando na promessa de economia e previsibilidade, mas seguem pagando contas cheias enquanto os sistemas permanecem inoperantes por entraves atribuídos à distribuidora.
Nas redes sociais e em relatos enviados a órgãos de defesa do consumidor, multiplicam-se queixas de processos administrativos lentos, falta de informações claras e respostas padronizadas que não resolvem os casos. Em diversas situações, consumidores afirmam que toda a documentação exigida foi entregue dentro do prazo, mas a vistoria ou a liberação final da Cosern simplesmente não ocorre.
O problema atinge não apenas residências, mas também pequenos empresários, produtores rurais e comércios locais, que planejaram seus investimentos com base na geração própria de energia e hoje enfrentam dificuldades para honrar compromissos financeiros. O cenário revela um descompasso entre o avanço da energia solar no estado e a capacidade operacional da concessionária em acompanhar essa expansão.
Atendimento precário e desgaste social
As dificuldades se agravam nas agências físicas da Neoenergia Cosern. Consumidores relatam falta de técnicos especializados, ausência de autonomia dos atendentes e sucessivos encaminhamentos sem solução concreta. Um episódio recente em Parnamirim, envolvendo o atendimento inadequado a uma idosa, reforçou a percepção de despreparo e gerou forte repercussão negativa.
A sensação predominante é de abandono. Mesmo diante de reclamações reiteradas e do impacto direto no orçamento das famílias, a concessionária não apresenta prazos objetivos nem cronogramas transparentes para resolver os problemas.
Mobilização e pressão popular
Diante da ausência de respostas efetivas, consumidores e empresários do setor de energia solar decidiram se mobilizar. Um protesto pacífico está marcado para a próxima sexta-feira (06), em frente à sede da Neoenergia Cosern, em Natal. A manifestação cobra transparência, respeito aos consumidores e a imediata regularização das usinas que aguardam ligação, além da revisão das cobranças questionadas.
Respostas insuficientes
Após a repercussão negativa, a Neoenergia Cosern informou ter iniciado diálogos com representantes do setor, incluindo reuniões com a Associação Potiguar de Energias Renováveis (APER) e a promessa de reforço no atendimento em algumas agências. Também foi anunciada uma nova rodada de negociações para o início de março.
No entanto, para os consumidores afetados, as medidas anunciadas soam mais como ações paliativas do que soluções estruturais. Enquanto reuniões são agendadas, centenas de sistemas solares seguem desligados, e milhares de usuários continuam pagando por uma energia que poderiam estar produzindo.
O episódio levanta questionamentos sobre a capacidade da concessionária em garantir um serviço eficiente, transparente e compatível com a realidade da transição energética. Para os consumidores, o que está em jogo não é apenas economia, mas o direito a um serviço público de qualidade e o respeito aos investimentos realizados.

