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Editorial | Eleição indireta: legal, mas profundamente incômoda

O Rio Grande do Norte caminha para uma eleição indireta para o Governo do Estado em abril de 2026. Um fato juridicamente possível, mas politicamente perturbador. Não apenas pela excepcionalidade do mecanismo, mas pelo que ele revela: o velho impulso das elites de decidir entre poucos aquilo que deveria ser resolvido pelo voto popular.

A última vez que o povo potiguar foi afastado da escolha do governador ocorreu em 1978, sob a sombra da ditadura militar. À época, não havia disfarces. O “Pacote de Abril”, imposto pelo general Ernesto Geisel, foi criado justamente para eliminar riscos eleitorais e garantir que o poder permanecesse nas mãos certas — ou melhor, nas mãos de sempre.

O método era simples: decisões tomadas em Brasília, articulações familiares e políticas nos bastidores e uma Assembleia Legislativa reduzida ao papel de carimbadora de decisões alheias. Foi assim que Lavoisier Maia chegou ao Governo, após articulação direta de Tarcísio Maia com o general Golbery do Couto e Silva. A ARENA cumpriu o script. O povo assistiu.

Quase cinquenta anos depois, o cenário é outro no papel, mas desconfortavelmente parecido na prática. A eleição indireta que se avizinha nasce de uma manobra política, não de uma crise institucional inevitável. Nasce da lógica de preservação do poder, não de um pacto republicano.

Não se trata de negar a legalidade do processo. Trata-se de questionar sua legitimidade política e moral. Um governador escolhido por poucos, em reuniões fechadas, sem debate público, sem confronto de ideias e sem o voto direto da população governa com o carimbo da exceção, ainda que amparado pela Constituição.

O argumento da “estabilidade” já foi usado antes. O discurso da “responsabilidade” também. Ambos serviram, historicamente, para justificar acordos de cúpula, exclusões deliberadas e decisões tomadas longe da sociedade. O resultado nunca foi fortalecimento democrático, mas desconfiança, apatia e distanciamento entre governantes e governados.

O mais inquietante é perceber que, mesmo após décadas de redemocratização, o sistema político ainda recorre aos mesmos atalhos quando seus interesses estão em jogo. Muda-se o contexto, mudam-se os personagens, mas permanece a lógica: decidir primeiro, explicar depois.

A eleição indireta de 2026 será legal. Mas será, sobretudo, um lembrete incômodo de que a democracia potiguar ainda convive com sombras do passado. E toda vez que o voto popular é tratado como obstáculo, e não como fundamento, algo está profundamente errado.

A história não se repete por acaso. Ela se repete porque encontra terreno fértil.

É isso.

A história é mestra da vida — e quem insiste em ignorá-la acaba repetindo os mesmos erros, só com novos discursos e velhas práticas.

No Rio Grande do Norte, o passado não está distante: ele reaparece quando decisões fundamentais voltam a ser tomadas em salas fechadas, longe do povo. Mudam os tempos, mudam os argumentos, mas a lógica do poder tentando se autopreservar continua a mesma.

A história ensina.

O problema é quando ela é tratada como enfeite, e não como alerta.

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