
A política potiguar começa a dar sinais claros de como será o ambiente eleitoral de 2026. E o padrão parece conhecido: muda o personagem, mas o conflito interno se repete.
Quando o vice-governador Walter Alves sinalizou que não assumiria o governo, o gesto foi interpretado como parte de uma construção política que abriria espaço para a candidatura de Fátima Bezerra ao Senado. Era uma movimentação estratégica, que, em tese, reforçaria a unidade do campo governista. Ainda assim, o resultado foi um distanciamento político e a sensação de que o aliado se tornou descartável.
Agora, o episódio se repete com a prefeita de Pau dos Ferros, Marianna Almeida. Ao declarar apoio a Fátima para o Senado e, poucos dias depois, anunciar voto em Allyson Bezerra para o Governo do Estado, a gestora passou a ser alvo de críticas e acusações de traição dentro do próprio campo político. O que, em outras circunstâncias, poderia ser interpretado como uma estratégia de composição, passou a ser tratado como ruptura.
Esse tipo de reação revela muito sobre o cenário que se desenha para 2026.
O problema estratégico
Eleições majoritárias, especialmente para o governo e o Senado, exigem amplas coalizões. Nenhum projeto vence sozinho. É necessário dialogar com diferentes forças políticas, respeitar lideranças regionais e construir consensos mínimos.
Quando o ambiente político se torna marcado por exigência de alinhamento absoluto, o resultado tende a ser o isolamento. Prefeitos, deputados e lideranças locais passam a buscar alternativas fora do grupo governista, não necessariamente por afinidade ideológica, mas por necessidade de sobrevivência política.
Esse movimento pode gerar um efeito dominó:
- Redução da base de apoio no interior
- Fragmentação das alianças
- Fortalecimento de candidaturas de oposição
- Dificuldade de formação de chapas competitivas
O peso do interior na eleição
O Rio Grande do Norte tem um histórico claro: governos e senadores se elegem com forte apoio municipal. Prefeitos e lideranças regionais continuam sendo peças-chave na formação de palanques.
Quando essas lideranças se sentem pressionadas ou desconsideradas, a tendência é buscar abrigo em projetos políticos mais flexíveis e abertos ao diálogo.
O caso de Marianna Almeida, prefeita de uma das cidades mais importantes do Alto Oeste, simboliza esse processo. Não se trata apenas de um episódio isolado, mas de um sinal de alerta sobre o grau de coesão do campo governista.
O risco para 2026
Se a lógica política continuar baseada em imposição e não em construção coletiva, o grupo governista pode chegar a 2026:
- Com base municipal fragilizada
- Sem unidade entre aliados tradicionais
- Enfrentando adversários fortalecidos regionalmente
- Com dificuldade para formar uma chapa majoritária competitiva
Nesse cenário, uma derrota não seria apenas resultado de uma campanha mal conduzida, mas consequência direta de um processo político marcado por rupturas internas.
Um recado antecipado do eleitor
O eleitor potiguar costuma valorizar estabilidade, diálogo e capacidade de articulação. Projetos políticos que demonstram conflitos constantes entre aliados tendem a perder credibilidade.
Por isso, o que hoje parece apenas uma disputa interna entre lideranças pode, na prática, estar antecipando o clima da eleição de 2026.
Se o roteiro continuar o mesmo, o desfecho também pode se repetir — e o julgamento final, como sempre, ficará nas mãos do eleitor.

