Talvez uma das perguntas mais incômodas da política brasileira seja esta: em que momento deixamos de escolher os melhores para simplesmente tentar impedir aqueles que consideramos piores?
A política brasileira transformou o voto, muitas vezes, em um exercício de rejeição.
Já não se discute suficientemente quem está mais preparado, quem apresenta o melhor projeto, quem possui capacidade administrativa ou quem reúne condições para melhorar efetivamente a vida da população. A pergunta passou a ser outra: “Em quem preciso votar para derrotar o outro?”
E esse fenômeno não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda.
O eleitor brasileiro foi empurrado para uma espécie de arquibancada política. Escolhe um lado, veste a camisa e passa a defender seu grupo como se estivesse acompanhando uma partida de futebol. Quando isso acontece, erros deixam de ser erros dependendo de quem os pratica.
Corrupção é condenável — desde que seja do adversário.
Incompetência é imperdoável — desde que seja do outro lado.
Privilégios são absurdos — desde que beneficiem aqueles dos quais discordamos.
Esse comportamento é extremamente perigoso para uma democracia.
Quando o eleitor deixa de fiscalizar o político em quem votou, entrega a ele praticamente um cheque em branco.
Também precisamos reconhecer que muitos brasileiros votam condicionados pela própria realidade. Emprego, renda, programas sociais, segurança, religião, valores pessoais, lideranças regionais e até relações familiares interferem na decisão eleitoral. Não existe apenas um motivo capaz de explicar o voto de milhões de pessoas.
Mas existe algo que deveria unir todos: a cobrança por resultados.
Presidente, governador, senador, deputado, prefeito ou vereador não deveria ser tratado como ídolo. Político é funcionário temporário da sociedade.
Foi eleito para trabalhar, administrar recursos públicos, apresentar soluções e prestar contas.
Talvez, portanto, o grande problema não seja simplesmente o brasileiro ter “resolvido votar no pior”.
O problema pode ser ainda mais profundo.
Estamos desaprendendo a escolher e, principalmente, desaprendendo a cobrar.
Enquanto continuarmos votando movidos exclusivamente pelo medo do adversário, pela paixão partidária ou pela idolatria de políticos, continuaremos presos ao mesmo círculo.
Trocam-se os nomes.
Trocam-se os partidos.
Trocam-se os discursos.
Mas os problemas permanecem.
Uma democracia amadurece quando o cidadão consegue fazer algo aparentemente simples, mas cada vez mais raro: criticar até mesmo aquele em quem votou e reconhecer os acertos daquele em quem jamais votaria.
E é preciso dizer algo ainda mais incômodo: não podemos exigir uma política melhor se continuarmos premiando nas urnas os mesmos comportamentos que condenamos nas conversas.
O político que mente, promete e não cumpre, administra mal ou usa o cargo apenas para preservar poder precisa encontrar no eleitor a resposta que mais teme: a rejeição nas urnas.
Porque democracia não é apenas o direito de escolher. É também a responsabilidade de arcar com as consequências da escolha.
Se continuarmos transformando políticos em ídolos, partidos em religiões e adversários em inimigos, não haverá renovação verdadeira. Haverá apenas alternância de nomes comandando os mesmos velhos problemas.
No fim das contas, o Brasil terá uma política melhor quando o voto deixar de ser uma declaração de amor a políticos e voltar a ser aquilo que deveria ser: uma decisão racional sobre quem merece — ou não — receber o poder do povo.
E quando alguém demonstrar que não merece, pouco importa sua bandeira, seu partido ou seu discurso: a resposta precisa vir das urnas.
Jornal Folha Regional

